domingo, 24 de março de 2013

Lancha Brasil I



LANCHA BRASIL-I
                                                                                       
                                                                                      

O meu embarque na Marinha Mercante (Navegação de Cabotagem) ocorreu em 15 de Agosto de 1987. Foi um momento muito esperado, mas de pequena duração motivado por um grave acidente com a Lancha Brasil-I (Foto 01), na saída da barra do porto de Guamaré, RN. Quando fui para a reserva da Marinha de Guerra em 1985, eu tinha um objetivo de só embarcar novamente depois de dois anos de aposentadoria. Era como eu mesmo dizia para os amigos, tirar uma grande folga longe do mar. Entretanto, um ano depois de vestir o pijama, senti falta da vida agitada que o mar proporcionava e procurei contatos com o pessoal da Capitania dos Portos para me habilitar a tirar a carteira (concurso) de Condutor Motorista. De posse dessa carteira, embarquei na Lancha Brasil-I da Delba Navegação Ltda.


 Lancha Brasil I


Construída sob encomenda em estaleiro no Ceará, a embarcação tinha características próprias para dar apoio às plataformas da região Nordeste, precisamente em águas rasas. Medindo cerca de trinta metros de comprimento e de fundo chato, a lancha não lembrava nada os imponentes navios da Marinha onde servi por muitos anos. Fui apresentado a bordo pelo subgerente da empresa que trazia consigo documentos da lancha e suplemento de rancho. Nessa mesma tarde ele voltou para a base da Delba em Natal. Percorri o navio de proa a popa me surpreendendo com o tamanho das acomodações e mentalmente fazia comparações com os últimos navios da marinha que tinha servido por mais de vinte anos: Rebocador Almte. Guilhem 65 metros, Contratorpedeiro Maranhão 115 e Cruzador Barroso com 183 metros de comprimento total. Apesar das comparações, achei a minha nova embarcação bem cuidada e que minha adaptação seria rápida.  
No dia seguinte, o barco recebeu carga geral e largou do cais na maré às 10h30min. Descendo o Rio Aratuá, a lancha abria vista por bombordo para a Praia do Presídio com suas casinhas de madeira. Por boreste, uma visão ampla dos manguezais abundantes da região, interrompida por um Furo (espaço de um afluente) que acessa ao atracadouro da Salina Amarra Negra. Deixando pela popa o farol de Galinhos, a lancha mergulha no mar aberto ao campo de Ubarana. Era essa a missão da Brasil-I, transportar carga geral e translado de pessoal para as plataformas marítimas naquela área.
Depois de trinta dias de entrada e saída da barra de Guamaré, eu já conhecia todos os movimentos do barco quanto ao conteúdo da carga, o destino das entregas nas plataformas e jaquetas e particularmente as curvas do Rio Aratuá; sabia até onde começava os primeiros balanços da embarcação, isso depois de ultrapassar a quarta bóia rumo ao mar.
Estávamos no mês de agosto e fazia um calor terrível na cidade de Guamaré com seus 10.000 habitantes, calor esse aliviado por lufadas esporádicas de ventos vindas da costa. No pátio de manobras da Petrobras, o movimento de carretas, empilhadeiras e guindastes era grande. Estavam atracados no cais três rebocadores e duas lanchas. A estiva se virava arrumando as cargas e empilhando Pallets de sal no convés de um rebocador.



CARGA PERIGOSA


Na minha cabine, eu fazia anotações pondo em dia o mapa de manutenção da máquina. Faltava uma hora para o barco largar do cais. Assim, fui à praça de máquinas ultimar os preparativos para o funcionamento dos motores (GM), verificando a água, óleo, ar comprimido e realizar o procedimento da pré-lubrificação dos MCPs. No convés, eu observei a carga que íamos levar para a área. Afora pequenas caixas e malotes, o grosso do material era somente tubos de perfuração. Era uma grande quantidade dessas varas de nove metros de comprimento, com diâmetro aproximado de três polegadas. Seriam umas trezentas unidades empilhadas no convés de ferro da embarcação que para o seu porte era uma carga considerável.
Às 13h30min, os cabos de amarração são liberados e o comandante da Brasil-I manobra em marcha lenta descendo o sinuoso rio com os tubos de ferro. Como eu sempre fazia na saída do porto, me postei na porta do rancho virado para a popa observando a carga. A lancha descia suavemente, como se estivesse em um lago. Depois da quarta bóia surgiam as primeiras marolas vindas do mar. O rio se alargava na medida em que o barco avançava e sempre desviando os bancos de areia que são muitos naquela barra. Um fato me chamou a atenção: verifiquei que os canos se acomodavam nas curvas com o aumento dos balanços da embarcação. Fiquei atento e não mais tirei os olhos do monte de ferro na minha frente, devido à proximidade do mar.


A Virada


A pequena cidade sumiu atrás das dunas que margeiam o Rio Aratuá. O cheiro forte de maresia indicava que estávamos perto da saída da barra. Eu já me segurava no corrimão da antepara por causa dos fortes sacolejos da pequena lancha. De repente, a embarcação mergulhou em uma vaga e os tubos de ferro tilintaram uns sobre os outros sobrepondo- se a boreste (lado direito). Lépido, saí daquele marasmo e fui avisar ao comandante que a carga ia Correr. No tijupá, conduzindo o barco com muita perícia, o Mestre de Cabotagem mal ouviu o meu grito. A pequena Lancha Brasil-I tombou para boreste levando toda carga, saindo do seu centro de gravidade e permanecendo nessa incômoda posição com uma das hélices fora dágua, cavitando. Zé Brito, o comandante, foi arremessado para a borda do navio, mas não largou o timão. Eu também caí para o mesmo bordo, e desorientado me agarrei no degrau da escada do mastro. Para entender a situação: tudo que estava na horizontal ficou na vertical. Portanto, tive que me arrastar como um réptil até a borda e me apoiar em cima do costado que antes ficava mergulhado na água. Os demais membros da tripulação estavam na mesma posição, grudados no casco da lancha. Foi um momento apavorante, o medo tomou conta de todos nós, pois o barco estava prestes a emborcar. Grudado nas chapas de ferro que formavam o costado, a minha preocupação era com o impacto das grandes ondas que batiam sucessivamente em toda extensão da lancha. Pensei em me jogar no mar ao ver uma grande onda se formando a barlavento. O comandante, exasperado, gritou para alguém guarnecer o rádio e fazer uma chamada de emergência enquanto governava a lancha praticamente deitado no piso do tijupá. Arrastei-me até o suporte do rádio que estava na freqüência de espera, canal 16, e fiz uma chamada geral para toda a área. Segurando firmemente a balaustrada esperei o impacto da grande onda que poderia emborcar a nossa embarcação. Não me lembro de se sentia medo naquela hora. Estava sim, muito tenso, pensando tão somente em me jogar na água no momento certo. Caiu a grande onda no pequeno convés da Brasil-I estremecendo toda aquela massa de ferro. A pancada foi tão violenta que o barco quase volta a sua posição normal de flutuação. Uma cortina de água caiu sobre nós. O balanço provocado pelo impacto quase me arremessou para as águas turbulentas da costa de Galinhos. Não tardou chegar resposta de terra ao nosso chamado. Era da base da Petrobras em Guamaré, solicitando detalhes e mais informações do que estava ocorrendo:

- Brasil-I, SETRAMA, (setor de transporte marítimo): “o que ‘tá’ pegando?”.
- SETRAMA, Brasil-I: “estamos nas imediações da bóia de espera, a carga correu e a lancha virou. Estamos com um eixo fora dágua, precisamos de socorro urgente!”.

O que era uma tarde ensolarada com ventos moderados virou para tempo nublado com ares de borrasca. A experiência de Zé Brito fez a diferença lutando valentemente no timão para aproar a embarcação no rumo do Porto. Só que a lancha não respondia ao comando por conta de um dos lemes estar fora d’água.
A espera do socorro prometido era exasperante, mas uma nova chamada do SETRAMA dava conta de que a Lancha Parnaíba que estava operando em Ubarana vinha nos socorrer. Vinte minutos depois, o socorro chega a nossa proa. O diálogo entre os dois comandantes foi sucinto:

-Vou passar um cabo pela sua proa, em seguida rebocá-lo até o porto!
– O outro responde, Pode arremessar!


Epílogo


O porto de Guamaré estava apinhado de gente: funcionários da Petrobras, seguranças do pátio de manobras e todo o pessoal da estiva a espera da lancha que chegava com o casco fora dágua mostrando a hélice de bombordo no seco. Dentro do rio não tinha mais balanço e logo que atracou, descemos para terra obviamente sendo alvo de perguntas. A estiva deu início à retirada dos tubos. A cada lote de tubos içado pelos guindastes, a lancha retomava o seu ponto normal de flutuação. Evidentemente que a Petrobras queria saber por que a lancha virou e o que havia de errado com a carga.
Reunidos no escritório do SETRAMA, o comandante da lancha, o gerente da Delba Navegação Ltda. e o encarregado da Petrobras chegaram à conclusão que os tubos sobre o convés de ferro sem um anti derrapante fatalmente acarretaria em problemas com o desarrumo de carga em mar agitado. O acidente poderia ter sido evitado se a carga dessa natureza fosse peada com correntes e bem distribuída sobre o convés.
Entende-se que um fato como esse é passível de discussão para tão somente aumentar a segurança dos equipamentos e, principalmente, a segurança das vidas envolvidas no processo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ilha da Trindade IV



                             O Pico do Desejado


            Quando um membro da guarnição está integrado com os meandros da Ilha passa a encarar desafios mais ousados, a ver sem temor obstáculos que antes seriam intransponíveis e se aprofundar em pontos mais difíceis e um desses desafios é chegar ao Pico do Desejado (602m). Quem passa pelo POIT e não vai ao Teto da Ilha é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. È como o lugar mais alto do pódio em uma competição esportiva.  Para se chegar ao cimo tem que se transpor uma série de trilhas, a maioria delas apagadas e outras demarcadas com cal, escalar barreiras e escarpas e passar colado em uma parede que forma o Valadão. Esse trecho é o resultado da erosão que se formou ao longo do tempo, um rasgo gigantesco no centro da Ilha.
            Para mim, foi o ponto mais crítico da caminhada até o topo. A 450 metros de altitude tem-se acesso a uma localidade conhecida como Cela onde o terreno forma uma espécie de praça que se apraz a descanso e o mais importante á observação dos acidentes da Ilha lá embaixo: Morro do Paredão, Praia do Príncipe, Ponta dos Farilhões, Praia das Tartarugas e bem distante, 40 milhas náuticas a Leste, o arquipélago de Martim Vaz, tudo visto em pequenas dimensões em virtude estarmos acima desses acidentes a mais de 400 metros de altitude. A beleza de tudo lá embaixo é indescritível. Sentados naquela altitude ninguém se atrevia a falar, bastava ver tudo e se conscientizar que poucas pessoas no mundo têm o privilégio de estar num universo tão surpreendente. A Subida prossegue em Zig-Zag serpenteando bases de morros e quando não, praticando alpinismo amador. O preparo físico foi determinante nessa aventura.
            Finalmente alcançamos o Ponto Culminante da Ilha da Trindade! Exaustos e muito emocionados, exultamos aquela conquista. Guardando as proporções, é como um montanhista alcançar o Pico da Neblina com 3014 metros de altitude, o ponto mais alto do Brasil no noroeste do Estado do Amazonas. Ali no topo da Ilha eu observei a vastidão do Oceano, formando de onde estávamos uma circunferência colossal. Eu me imaginava o vértice de tudo aquilo. Para deleite do grupo encontramos naquele ponto uma matinha com plantas e arbustos um espetáculo de rara beleza. Explorando a área, encontramos as decantadas Samambaias Gigantes de até seis metros de altura remanescente da flora devastada desde as primeiras ocupações, e como representante da fauna, proliferavam lá em cima os caranguejos gigantes (encontrado somente no Desejado) diferente dos crustáceos amarelos da parte baixa da Ilha. Via-se também no topo de um morro abaixo conhecido como Fazendinha, um pequeno bando de ariscas Galinhas D’angola popularmente conhecidas no nordeste brasileiro como Guinés. O nosso grupo teve o privilégio de assistir a um espetáculo belíssimo de múltiplos Arco-íris lá embaixo encobrindo a parte habitada, motivado pelo Pirajá que desabava naquela hora.
            Satisfeitos, esbanjando muito orgulho por ter alcançado o ponto mais famoso da Ilha o grupo desce sem problemas até o nível do mar. Eu particularmente estava exultante e querendo logo anotar a Invasão do Desejado.
                                                                  
                                                   
Curiosidades


            Com o passar do tempo na Trindade, tomamos conhecimento de fatos pitorescos e até inimagináveis. Comentando sobre A Rotina fiz referencia ao fenômeno das águas na praia com a aproximação de uma pessoa notadamente nos lugares ermos como presenciei na base do morro do paredão onde existe um túnel. Dessa feita me refiro a Pedra da Garoupa localizada na Praia do Príncipe. Essa pedra ficou temida e conhecida pelo triste episódio envolvendo dois membros de guarnição anterior a nossa, que perderam suas vidas quando pescavam sobre ela, daí estigmatizada como Pedra da Garoupa.
        A sua posição na praia com maré baixa é um convite para subir ao seu topo (3 metros) e jogar a linha na água. Junto com outros companheiros a curiosidade nos levou até lá. Para chegar à praia do Príncipe onde fica a pedra, faz-se uma descida de 200 metros em uma encosta de declive acentuado parecendo mais uma parede e o surpreendente nesse sitio é um cheiro muito forte de enxofre por toda sua extensão, aliás, essa área se estende ao morro do paredão onde existem crateras do vulcão extinto. Ficamos na beira dágua observando as inscrições gravadas na face da gigantesca rocha: duas estrelas e duas cruzes, princípio e fim de dois guardiões do POIT.  O mar estava calmo e as águas chegavam à beira dágua em fluxo e refluxo bem de mansinho. Absortos, com os olhos grudados na pedra, inesperadamente fomos surpreendidos por uma carga dágua que nos empurrou para terra firme. Eu particularmente tive receio de ficar naquele lugar, pois aquilo me lembrava do que aconteceu na plataforma do Túnel. Outro fato semelhante ocorreu na Praia das Cabritas no norte da Ilha onde existem piscinas naturais de águas transparentes. Com a minha proximidade das águas, o mar que estava manso foi aos poucos aumentando o vai-vem das ondas, e surpreendentemente o local ficou ressacado o que me fez sair prudentemente daquele lugar. São coisas assim que fazem da Trindade um lugar surpreendente e fascinante.    A Ilha está plantada naqueles confins a milhões de anos e o contingente humano que pisou o seu solo em épocas remotas deixou a nefasta marca da devastação de sua flora. Até parece que esses fortuitos incidentes são uma represália do mar às guarnições contemporâneas.

                                                                    Praia das Tartarugas


            A Praia das Tartarugas, segundo biólogos, é um ponto de desova desses quelônios e a Trindade é sempre visitada por elas deixando cada uma cerca de 130 ovos enterrados na areia. Realmente é a única praia na ilha que tem uma extensão muito grande de areia. Movidos pela curiosidade fomos ao local a noite munidos de lanternas e bem agasalhados, uma vez que fazia frio, mais pela rajada de vento que soprava na hora. Se chegar a essa praia com a luz do sol era difícil, pior ainda durante uma noite sem lua. Caminhando em fila indiana, transpomos as barreiras naturais até pisar as areias fofas do sítio dos quelônios. Acendemos nossas lanternas e varremos o lugar com fachos de luz.              
Encontramos facilmente uma enorme representante acabando de cobrir com areia o buraco onde tinha deixado seus ovos. Fomos ao seu encontro checar de perto. Era um belo exemplar de tamanho, e de peso, que teria aproximadamente setenta quilos, a cabeça e o pescoço de grandes bitolas insinuavam uma tartaruga adulta. Para tirar fotos foi preciso deixá-la de barriga pra cima até o dia seguinte para aproveitar a luz do dia. Depois das fotos ajudamos à centenária (?) tartaruga seguir rumo ao mar deixando atrás dela o rastro sulcado pelas longas barbatanas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ilha da Trindade III



A Rotina
                                                 


            O tempo passava lentamente naquele inóspito pedaço de terra no meio do Oceano Atlântico, e seu contingente humano já se ressentia do isolamento a que estava submetido. Alguns homens se mostravam soturnos, arredios, enquanto outros com expressões graves e de barbas crescidas não escondiam a apatia que lhes envolviam. Quando o sol dava lugar ao crepúsculo (hora do banzo) a nostalgia assomava a todos nós e cada um tinha a sua maneira de viver àquelas horas tão marcantes. Era o momento de descer ao rancho, e pra chegar lá saindo do alojamento, seguia-se por uma pequena descida de nome Chora na Rampa. Jantar simples e cardápio repetitivo mantinham o pequeno grupo no mais completo mutismo. O silêncio só era quebrado com o encontro de pratos e talheres. Cada sargento, cabo ou marinheiro naquele jantar singelo, guardava consigo suas preocupações que ficaram no continente. Quando larguei do Rio Janeiro rumo à Trindade deixei a minha família; mulher e dois filhos sendo a caçula com três meses de idade. Outros companheiros também tinham suas preocupações e com isso o ambiente era de desânimo e de recolhimento. À noite, eu procurava ler o que trouxe do Continente e rotineiramente anotava o que tinha feito durante o dia. Na sala de lazer, jogos de salão como Damas, Tênis de Mesa e Xadrez, ajudavam a passar o tempo, mas o Aliado ( jogo que se pratica com dados) era o mais procurado isto por ser inventado na Marinha de Guerra. O importante naquela oportunidade era fazer alguma atividade, manter-se ocupado a exemplo de Robinson Crusoé do romance de Daniel Defoe, que viveu por muitos anos numa ilha deserta no mais triste isolamento.  Assim a gente pescava, jogava futebol e fazia caminhadas para ocupar o tempo; até atividades amenas como trabalhos artesanais e pintura com areias coloridas. A pintura que me refiro é uma técnica desenvolvida na ilha que consiste em misturar areia em tinta que depois de seca e peneirada adquire a cor desejada e daí aplicada com cola em telas.          A areia preta não passa por esse processo, mas é encontrada In Natura na Praia do EME no noroeste da ilha. A característica principal da areia preta é que ela é um minério de ferro com forte teor de magnetismo em sua constituição. Com essas e outras atividades o tempo seguia o seu curso lento e rotineiro. Um passatempo que se tornou prazeroso era a pesca do Xarel no local denominado Parcel, distante do Posto cerca de quatro quilômetros. Para chegar lá era uma verdadeira maratona escalando encostas e blocos de pedras e o que era mais cansativo, atravessar as areias da Praia das Tartarugas. Éramos um grupo de cinco pessoas invariavelmente, todas equipadas de anzóis e iscas de sardinha pescadas na praia da Calheta. A praia do parcel como era conhecida, não era apropriada ao banho, tinha muitos escolhos de portes variados formando o nosso pesqueiro um ponto extremamente perigoso. A pesca era proveitosa: entre peixes de pequeno porte à Xaréus e Garoupas de dez a vinte quilos. Quando a maré estava cheia, as ondas arrebentavam nos arrecifes com muita violência obrigando a nós pescadores procurar um lugar mais seguro. Se a ressaca do mar continuava, o grupo cautelosamente empreendia a volta ao Posto. Nesse lado da ilha fica o Pico do Paredão com 217 metros de altura, onde em sua base tem um túnel feito pela natureza com cerca de quarenta metros de extensão mostrando o mar do outro lado. Esse túnel teria aproximadamente oito metros de diâmetro.
            Na Trindade existem coisas curiosas dignas de reflexão, especificamente no que diz respeito ao mar com a aproximação do homem na beira da praia. Certo dia, eu e um companheiro tentamos dar a volta na base do Paredão aproveitando a maré baixa para ver a saída túnel do outro lado. O mar estava liso sem ondas, como dizemos um mar espelhado. Da plataforma onde estávamos para a linha dágua daria sem dúvida dois metros de altura, e de repente o mar baixou mais ainda e em seguida toda a massa dágua cresceu chegando a alagar a plataforma onde a gente caminhava. Era como se tivesse vida, era como quisesse nos arrebatar para suas profundezas. O pavor desmedido foi o combustível que nos tirou imediatamente daquele lugar.  Sem entender aquela mudança abrupta empreendemos a volta imediata para a nossa base.
            Por mais de cinqüenta dias, já familiarizado com tudo que a Ilha oferecia, o tédio foi cedendo ao otimismo e a alegria de viver num lugar tão rude e de beleza indomável.
                                                     

                                                 
Sou Licença
(Segunda Parte)



            No começo de Junho, era grande a expectativa ante a chegada do navio abastecedor que traria com sua carga principal, noticias e encomendas dos familiares. A vinda de gente nova era outro fator de alegria, que dava a gente com mais de sessenta dias reclusos no meio do Oceano Atlântico. Escusado é dizer do reboliço e contentamento no desembarque da nova turma. Os novatos vindos do Continente, de traços urbanos, cabelos rentes e de rostos imberbes, contrastavam com os Insulares de barbas crescidas e peles trigueiras esbanjando vitalidades já adquiridas do clima da Ilha.   Recebi uma caixa de madeira contendo cartas, revistas, e um gravador de Fita k7 com uma mensagem gravada de minha esposa. Foi um momento muito alegre saber que tudo andava bem com os meus lá no Rio de Janeiro.
           Quando o navio largou levando parte da turma que completou quatro meses na Ilha de volta a terra, a minha Cabritada (turma) assumiu a antiguidade do POIT. É tradição a vésperas de uma turma retornar para o Continente se fazer uma despedida festiva com discursos, trocas de presentes, menções de feitos relevantes e para culminar com o evento, é feita a cerimônia de passagem do Bastão de Comando. O oficial que deixa a Ilha, solenemente passa o Bastão Sou Licença ao oficial que fica, e este erguendo o Bastão exclama alto e bom som:- Eu Sou Licença! Ironicamente faltando mais de sessenta dias para um navio vir buscar a turma. Enquanto nós que estávamos ambientados no Posto, enchia de perguntas aos novatos sobre o Rio, o que aconteceu de vulto na cidade e até notícias do mundo, em contrapartida os novatos faziam perguntas sobre a Ilha. Naquela época não tinha Televisão no POIT e o Rádio mal sintonizava uma estação. Somente uma emissora do Brasil pegava bem durante a noite naqueles confins; a rádio que ficou célebre no país inteiro quando o locutor com voz empostada anunciava:- Pernambuco falando para o mundo, emissoras...
            Aos recém-chegados era passado tudo que aprendemos nos últimos sessenta dias, assim como ganhamos as experiências da turma que se foi. Por exemplo, o trato com os caranguejos torna-se uma lição básica uma vez que eles povoam toda a área habitada. Aos milhares infestam alojamentos, rancho, carpintaria até gavetas de armários etc., e quem anda pela primeira vez nos estreitos caminhos do Posto se assusta com aquele imenso tapete de crustáceos que não se intimidam á nossa passagem. Ensinamos aos novatos que passar por cima deles é uma questão puramente normal. O aparecimento de milhares deles ocorre principalmente após um Pirajá que são chuvas inopinadas que caem a partir de maio. Segundo o chefe da Estação Metereológica do POIT, são as chamadas chuvas orográficas, ou chuvas de relevo formadas na própria Ilha e que aqui mesmo se precipitam.
            Os pontos mais famosos como Praia da Galheta, das Tartarugas, Praia das Cabritas, do Príncipe e Praia do EME e a praia dos Portugueses onde fica o POIT, é tudo mencionado para quem chega. È mencionado também os picos que se destacam na paisagem da Ilha com pouco mais de 8.3 quilômetros quadrados abrigando treze montes de expressivas altitudes, um deles passando dos 600 metros; o Pico do Desejado o ponto culminante da Trindade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ilha da Trindade II

Ilha da Trindade II



O Perímetro Habitado


             
              Todas as construções do POIT (Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade) são de madeira que abrigam casas do Comando e do Imediato, enfermaria e alojamentos, prédio do rancho e estação rádio, casa de força (Usina Diesel Elétrica), Rádio Sonda (Estação Metereológica) e Carpintaria que ficam numa faixa estreita de dois quilômetros limitada pela praia e a encosta dos morros. Quando estive lá em 1978, não existiam casas de alvenaria; todas as construções eram de madeira. O trânsito entre esses prédios era feito nas estreitas ruas cimentadas, com pouco mais de um metro e meio de largura. Na Trindade faltava tudo que tinha em uma cidade do continente, como carros, lojas, padaria, botecos etc., multidão ansiosa pra chegar a seu destino, postes e luminosos vendendo a marca de um produto; o grito desvairado do ambulante na informalidade. Na Trindade o silêncio é tão presente só quebrado com as ondas se precipitando sobre as pedras na praia.
            Nos primeiros dias já instalados, o Imediato do posto, promoveu uma reunião com os recém-embarcados e apresentou algumas instruções básicas de como proceder na Ilha, por exemplo: não se afastar da área habitada sem um companheiro de lado e quando o fizer informar o destino, levar sempre em seu poder uma peça de cabo, lanterna e faca de marinheiro. Nunca, sob-hipótese alguma, andar descalço na ilha. Um eventual ferimento em membro da guarnição complicaria bastante a permanência dele no posto, embora existisse uma enfermaria para atender emergências e pequenas cirurgias. Em casos mais graves, o socorro teria que vir do continente a 1200 quilômetros.




                                                            O comando do POIT
                                                 

                                                      

            A presença militar na Ilha da Trindade garante ao Brasil a posse do território insular. A ilha com pouco mais de oito quilômetros quadrados ocupa uma posição estratégica no Atlântico Sul. Foi descoberta em 1501 pelo espanhol João da Nova a serviço da Coroa portuguesa. Foi visitada por celebridades como o capitão James Cook e o astrônomo Edmund Halley. Pertenceu à Inglaterra, até fins do século XIX, mas por via diplomática em um Tribunal Internacional, o Brasil ficou com a posse definitiva de Trindade. O posto tem no comando um Capitão de Corveta do corpo da armada da Marinha de Guerra do Brasil e como Imediato, um oficial do corpo médico, sabiamente indicado pelos escalões superiores da Armada.
            Com o advento do ano geofísico internacional em 1957, nasceu o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, POIT. Funciona em sua estrutura uma estação rádio telegráfica – PWH3 – e estação de meteorologia que coleta dados atmosféricos e os envia diariamente para a DHN.
                                                   


                                                           Primeira Incursão
                                  

            Os primeiros dias foram para reconhecimento das instalações e fazer novas amizades. O barracão do alojamento era dividido em dois compartimentos onde alojava sargentos e marinheiros e também uma sala de lazer com poucas opções de entretenimento. O expediente ia das 07h30 às 11h30. Não havia atividades no período vespertino e cada um escolhia o que melhor fazer.
            No meu caso, às 07h30 eu ia para a Casa de Força com meus dois auxiliares colocar os motores em funcionamento e fazer a manutenção nos demais equipamentos. O fornecimento de energia ia até às 14h, voltando a funcionar das 17h às 22h, quando então a ilha ficava as escuras até o início do expediente no dia seguinte. Era uma medida de economia adotada pelo comandante uma vez que a nossa cota de óleo diesel era de 5.000 litros até o próximo abastecimento, sessenta dias depois. Tínhamos na casa de força, uma câmara fria com capacidade para uma tonelada de carne sendo que as geladeiras do posto funcionavam a querosene a exemplo dos aquecedores de água para banho. O rancho funcionava em um barracão vizinho a carpintaria na Praça Nossa Senhora de Lourdes, padroeira da Ilha. Depois de quinze dias de permanência no posto, dava para sentir a ausência da vida agitada da cidade. Todo começo de uma cabritada (termo usado para o período de cinco meses), as refeições são normais tendo em vista o reforço de alimentos vindo do Rio de Janeiro, mas existia certo controle na distribuição, porque ao desembarcar na ilha, perde-se no mar boa quantidade de mantimentos ao transpor a arrebentação. Assim, dias pra frente o rancho perde quantidade e chega-se a cogitar um racionamento. Na minha cabritada, muita coisa foi tragada pelas ondas e boa parte que chegou a terra vinha totalmente encharcada de água.

 
            No início, o grupo fez as primeiras incursões fora do casario, pois ainda não havia passado dos limites das casas entre o rancho e a estação metereológica, em torno de dois quilômetros. Subimos uma encosta, cerca de cem metros de altura onde fica o cemitério local, com quatorze cruzes, referência aos que morreram na ilha, entretanto, são cruzes simbólicas. Na subida ao cemitério, muita beleza se apresentava a cada passo que se prosseguia nessa incursão. Dessa pequena elevação dava para observar o posto lá embaixo, com o casario todo branco. O solo em Trindade é extremamente acidentado onde nas partes mais baixas proliferam centenas de blocos de pedras de todos os tamanhos que certamente rolaram das partes mais altas em possíveis avalanches. A impressão que se tem é assustadora diante da diversidade de elementos a vista, assim como dos morros e picos gigantescos de expressivas altitudes. Para quem vinha de um aglomerado urbano como o Rio de Janeiro, tudo aquilo era um mundo novo, irreal.
            Completando a nossa missão exploradora, avançamos morro acima pelas trilhas íngremes até a gruta Nossa Senhora de Lourdes, beirando a duzentos metros de altitude e, confesso, foi o ponto que mais me chamou a atenção. A caverna é a maior dentre muitas que existem na ilha, tem cerca de trinta metros de profundidade e alturas internas variando de quatro a oito metros. Dentro dela a escuridão é predominante deixando a todos muito impressionados com o ambiente que se torna solene e austero, mas aos poucos a gente vai se envolvendo com a paz que envolve aquela gruta. No seu interior existe um tesouro; nada de baú com colares de pérolas e moedas de ouro, mas um pequeno acervo histórico como a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e as inscrições feitas nas rochas pelos presos políticos do levante do forte de 1922. Entre os nomes gravados (pelos próprios) nas rochas está do então capitão Juarez Távora, militar do exército figura expressiva da política brasileira por mais de quatro décadas. Ainda no seu interior, guarda lembranças e mensagens das primeiras guarnições que passaram pela Ilha: são placas, quadros mensagens desenhadas e escritas e mensagens de agradecimentos à Santa, guardiã da Ilha por um milagre alcançado. Outra coisa que chama a atenção do visitante é uma fonte de água límpida que emerge das frestas das rochas e de sabor inigualável.