Quarto Americano
Em muitas atividades humanas a
pontualidade é um item tão importante que seria um sacrilégio transgredi-la por
menor que for um simples atraso. É assim que funciona nas sociedades
organizadas; nos meios políticos nas agremiações e também no seio da vida
militar. Quando servi na Base Naval de Natal, a condução dos motores geradores
da Casa de Força era feita por meia dúzia de marinheiros em todas as vinte
quatro horas do dia. Por certo tempo esse número de operadores foi reduzido a
três homens o que se fez necessário aumentar o tamanho do quarto de serviço de quatro
para seis horas, consequentemente a folga seria também de seis horas. O homem
ao sair de Pau (serviço) ia direto para terra, permanecia na Base somente
quando estava de serviço nos motores. Era o chamado Quarto Americano. Corria
o carnaval de 1966, a cidade de Natal em fevereiro era palco dos festejos de
Momo. Muitos marinheiros conheciam o carnaval carioca e participavam das
escolas de samba da cidade. O Cabo Japiassu, por exemplo, era presidente da
Escola de Samba Aí Vem a Marinha. No
domingo gordo depois do Zé Pereira, o Cabo Loiola assume o serviço ao meio dia
na Usina como a gente chamava a Casa Força. Seria substituído ás 18.00 horas
quando então em terra ia dar uns pinotes na avenida. Os potentes motores
Wortington de 750 HP acionavam os grandes geradores que mantinham a Base Naval
com energia elétrica. O Loiola atento verifica o funcionamento dos MCPs água
óleo e temperatura e a ciclagem no quadro elétrico. Procurava estar sempre em
movimento para as horas passarem mais rápido. Vez por outra o graduado olhava
para o relógio. Em regime de domingo, aquela parte da Base Naval não tinha
ninguém por ali, somente o homem de serviço na casa de força. Às quatro da
tarde ele Já fazia os preparativos pra baixar terra. Impaciente dizia pra si-
ainda faltam duas horas. Em terra o carnaval comia solto com blocos, agremiação
de bairros, e naquele tempo se praticava o Mela
Mela. Ás cinco e meia faltando meia hora para a rendição de serviço o amigo
Loló já estava pronto a baixar terra; envergava a Burrinha (uniforme azul), os
sapatos eram espelhos e o chapéu muito caprichado. Enquanto chegava a hora o
amigo ligou o radinho de pilha para distrair. Deu uma olhada nos motores e
voltou para a entrada da Usina de olho na rua perscrutando a chegada do Cabo
Japiassu que viria substitui-lo. Seis horas, sete horas e o Japi de nada
aparecer. Extremamente irado o homem soltava fogo pelas ventas bradando imprecações:-
Ah ele me paga! Resignado, depois de três horas de atraso, ele tinha um
consolo: a qualquer instante o Japiassu ia chegar e receber o serviço.
Concentrou-se no radinho que dava noticias direto das ruas do carnaval.
Horrorizado ouviu o locutor da Rádio Cabugi que fazia essa entrevista na
concentração das escolas:- e agora vamos ouvir a palavra do presidente da
escola de samba Aí vem a Marinha, - fala Cabo Japiassu!
Natal, em 28 de Dezembro de 2010- Mário Monteiro